Sempre que a manhã traz suas cores douradas, iluminando os céus, me transporto de volta para o meu velho chico e vejo os reflexos dessas cores em suas águas abençoadas... e então, eu me sinto mais solitário do que nunca. Sinto saudades dos infindáveis dias que por lá passei, das aves, das poucas matas que restaram, mas que ocultavam em suas vestes tantos animais silvestres, alguns que eu nunca pude ver, mas ouvia seus sons, sentia seus movimentos, percebia sua presença, enfim.
Talvez eu nunca mais possa voltar ao meu velho chico, nem superar a saudade que me bate forte no peito, cala minh'alma, silencia meus pensamentos... mas ele permanece sempre dentro de mim, com sua presença mágica e encantadora, trazendo-me à lembrança sua gente simples, as cores de seu por-do-sol incomparável, os mistérios que se ocultavam em cada curva, esperando-me por desvendá-los, aguardando o instante também mágico desse nosso encontro casual e fantástico. O velho chico está dentro de mim.
Às vezes, em meus sonhos, surgem essas imagens e eu os confundo com a realidade que não mais existe, ao menos para mim. E também assim, eu me sinto só. Mas é uma solidão suave, desejada, experimentada, que me envolve e alimenta minha inspiração, pois sei que lá existem as lendas dos homens e dos animais; sim, pois elas também se confundem, entrelaçadas nas circunstâncias que as geraram, acasos fortuitos, coincidências, diriam os céticos.
Não são coincidências. Quem poderá contestá-las diante da verossimilhança do caboclo que a imaginou, não a inventou, mas supôs sua existência diante de algum fato ou ilusão inexplicável... muitas são as coisas inexplicáveis, nos limites da compreensão humana. Os homens preferem, muitas vezes, atribuí-las ao medo, à ignorância, à fantasia da criança que sempre vive em nós. Mas os mistérios, aqueles de Shakespeare e de todos nós, muito além do que "supõe a nossa vã filosofia", permanecerão para sempre no coração do cético e do mais fervoroso devoto de uma religião qualquer; pois, no fundo, não há sabedoria que espante a crença e a fé, sentimentos ancestrais que nos entorpecem a compreensão e a inteligência.
E volto ao meu rio, agora apenas um rio de lembranças, testemunhos de um passado recente que teima em não me abandonar, porque eu não quero, não posso, e não sei o que faria se isso acontecesse. Esse rio mudou a minha vida de tal sorte que já não me reconheço ao espelho, já não me compreendo nas palavras que escrevo, já não me identifico com a realidade que me circunda e oprime. Talvez por isso eu também não me faça compreender...
Por isso, minhas palavras são para mim mesmo, monólogos silenciosos na intenção oculta de me preservar, de conservar a sanidade que se afugenta de mim. O mundo me parece errado; as pessoas, fúteis; as amizades supérfluas; os sentimentos, tênues e efêmeros. Não sou mais "eu" e, contudo, sinto-me sólido e consistente em meus argumentos e palavras.
Se sigo outros caminhos é porque assim compreendo a vida, instável, suspensa no ar, transitória em sua eternidade incompreensível e sublime. Se me compreendem, não importa, pois deixarei meus traços nesse imenso universo humano, até que tudo se acabe e um novo ciclo de vida recomece em qualquer outra parte da imensidão do cosmos.
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