Foram três dias de canoagem desde Três Marias. Logo na primeira tarde encontrei uma bela ilha para acampar; um gramado extenso e tranquilo, onde montei acampamento. Estava feliz por ter superado a "cachoeira" Grande, com o apoio de Norberto, figura lendária do Velho Chico e grande conhecedor de seus mistérios. À noite a chuva chegou... primeiro, um festival de raios e trovões, prenúncio de tempestade. Minha barraca estava a uns cinco metros da água, em uma pequena elevação. Aparentemente, não deveria me preocupar. Mas não tive tempo de fazer um jantar e me contentei com minhas sementes e damasco. Escrevi um pouco e adormeci.Subitamente, acordei com pássaros cantando e voando agitados. Era um mau sinal... olhei para fora da barraca e a água subira quase meio metro, aproximando-se da barraca. Olhei o barco: tivera o cuidado de retirá-lo da água e emborcá-lo, pouco abaixo de onde eu estava; com a subida do rio, ficou meio submerso, inclusive com algum material, cabos e uma sacola, tudo dentro dágua.
Não tive alternativa, senão me levantar e preparar um plano de evacuação, caso o rio subisse mais um pouco. Improvisei uma sinalização; se a água chegasse àquele ponto, seria hora de partir. Juntei todas as sacolas, retirei o que pude da barraca (saco de dormir, isolante, equipamentos) e coloquei tudo no barco. Retirei os specs e deixei a barraca semi-desmontada, pronto para partir.
A noite se arrastou, deixando-me insone e preocupado, vigiando a marca de alerta, mas nada aconteceu. Não dormi mais. Às cinco horas resolvi partir, deixando aquele que teria sido um ótimo local para acampamento.
Desci o rio na expectativa de passar a "cachoeira" do Ladeiro (ou "Criminosa"). O rio estava rápido e as remadas rendiam bem; no entanto, o tempo permaneceu fechado e bastante úmido, prenunciando novas chuvas. Perto do meio-dia cheguei à corredeira; conforme Norberto me orientou, segui por um estreito e raso canal à direita, que formava uma ilha ao lado da corredeira. Saí depois dela e só então percebi que não havia nenhum perigo; com a elevação do nível do rio ela se tornou fácil e mansa... mas eu passara sem dificuldades pelo canal.
Logo a seguir a chuva voltou forte e decidi parar; procurei um local adequado, mas a mata era densa e não encontrei nada. Parei em um rancho e pedi para montar minha barraca no terreno. O dono, Francisco, me recebeu de forma hospitaleira, ajudou-me a desembarcar, emprestou-me toalha e sabonete e tomei um banho quente! Enquanto isso, ele e seu pai, também Francisco, já preparavam o almoço, para o qual fui convidado.
Depois fui levado a conhecer a propriedade e decidi voltar ao rio, pois a chuva passara. Agradeci aos meus anfitriões, amáveis como todos os mineiros que conheci nesta expedição, e segui meu caminho.
Parei uns dez quilômetros adiante e montei acampamento. Tive muito tempo para acampar. À noite verifiquei minha posição: ainda faltavam uns 50 km até Pirapora. Precisava chegar no dia seguinte, aniversário de minha filha Luciana. Acordei cedo e remei forte por cerca de 5 horas.
Cheguei a Pirapora às 13:30 horas e me encantei com as pontes, as corredeiras, a paisagem magnífica! O rio se espalhava por uns 300 metros de largura, movendo-se suavemente antes da velha ponte férrea meio abandonada...
Fui recebido por Tina, gestora do vapor Benjamin Guimarães, onde fiquei hospedado. Magnífica embarcação construída em 1913, percorreu o Mississipi, depois o Amazonas, chegando, finalmente a Pirapora, onde serviu durante anos! Hoje transporta turistas em passeios memoráveis de 3 a 15 dias, chegando até Januária.
Agradeço a Closé, meu amigo e assessor, que me propiciou as estadas em Três Marias e Pirapora. Amanhã retomo minha viagem, revigorado pelas excelentes horas passadas nesse ícone do passado!
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