O São Francisco era assim: nas cheias, formava lagoas onde peixes e pássaros se reproduziam e cresciam protegidos dos predadores. Quando as águas escoavam de volta ao seu leito, levava consigo a vida renovada e deixava para trás terras férteis e produtivas. As represas reduziram drasticamente essa função fertilizadora do rio.
Mas não foram apenas essas as consequências do represamento. Muitas espécies de peixes se reproduzem depois de subir o rio em direção à nascente, fenômeno conhecido como "piracema". Com a construção das represas, essas espécies não tinham como migrar e, aos poucos, foram desaparecendo do Velho Chico.
E houve outra consequência para a vida no rio: as represas funcionam como desaceleradora da correnteza; o rio reduz sua velocidade e, com isso, os detritos e a terra arrastada das margens, aos poucos se sedimentam no fundo, tornando a água límpida e azul. Parece bom, mas não é. Muitos peixes, como o dourado, precisam da correnteza para caçar. Outros dependem da água turva para surpreender suas presas. Nas águas lentas e límpidas das represas esses peixes tendem a desaparecer ou crescem menos, por não conseguirem se alimentar suficientemente.
Quando falamos em revitalização do São Francisco precisamos equacionar soluções para esses problemas: criar condições de reprodução das espécies desaparecidas ou ameaçadas de extinção, construir escadas próximas ao vertedouro das represas para permitir a piracema, estimular a criação de peixes em açudes próximos às margens para repovoamento das espécies ameaçadas, e proteger as lagoas remanescentes para que continuem sua função de berçários naturais para pássaros, peixes, répteis e mamíferos.
Mais um efeito do represamento: a grande área exposta pela lâmina dágua das represas favorece a evaporação; estima-se que 75% da evaporação do rio ocorre nas represas. É claro que uma parte dessa água retorna ao rio com as chuvas; no entanto, a evaporação é muito maior no período das secas.
Quanto ao assoreamento das represas haverá que se estudar alternativas economicamente viáveis para evitar que sua capacidade de armazenamento chegue a níveis em que a recuperação se torne onerosa demais para ser realizada. O custo ecológico da construção das represas pode ser, em parte, recompensado pelos benefícios sociais da regularização do ciclo das águas e da produção de energia elétrica, mas a sobrevivência do rio, evidentemente, é prioritária. Portanto, quando se pensa em um projeto de revitalização da bacia do São Francisco, há que se considerar os impactos dos reservatórios artificiais construidos em seu percurso, e em soluções específicas para esses ecossistemas confinados.
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