Poderia relacionar minhas aventuras às fantásticas provações por que passou Ulysses em sua viagem de retorno a Ítaca. Seria uma metáfora incrível!
Poderia mesmo imaginar que minhas dificuldades serão grandes o bastante para associá-las aos perigos enfrentados por Ulysses. Uma comparação enriquecedora...
Mas o motivo que me leva a batizar minha canoa de "Ulysses" é outro: o nome de meu pai! Ulysses teria sido um homem comum, não fosse seu caráter irrepreensível, sua generosidade desinteressada, sua paixão pelos seus filhos e por sua mulher, sua vida impecável, singela e edificante.
Meu pai foi meu grande referencial nesta vida e continua sendo meu Norte e destino. Sem ele eu não seria ninguém, ou talvez tivesse trilhado outros caminhos e me desviado da senda da Justiça e do Bem.
Ele não escreveu nenhum livro, mas deixou milhares de páginas escritas em minha memória... suas palavras sempre foram altruistas, idealizadas para converter pensamentos, para gerar ações positivas, para produzir efeitos duradouros nas almas que tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Ulysses foi uma unanimidade... dizem que a unanimidade é burra, mas não neste caso! Ninguém que o tenha conhecido poderia ter um pensamento mau para esse Homem essencialmente bom.
Quando eu remar "Ulysses" terei a companhia de meu pai. Foi ele quem me ensinou a remar, ainda jovem; era uma canoa pequena, uma catraia daquelas em que os remos são fixos no centro do barco, fáceis de manobrar. Remávamos contra a correnteza, no rio Pardo e, quando nos cansávamos, deixávamos o barco voltar lentamente, sentindo a brisa, ouvindo os pássaros, deixando o pensamento voar para bem longe até o limite da imaginação.
Quando estiver cansado, em minha longa jornada, eu me lembrarei que ele, o meu pai, trabalhou dos doze aos setenta e oito anos de idade, incansavelmente... e nunca se queixou de nada, nem de uma dor sequer!
Quando me sentir solitário, eu me lembrarei de meu pai, que perdeu sua mãe aos dois anos e seu pai aos seis, vivendo com sua tia em uma pensão simples do interior.
Quando minhas forças me abandonarem, em me lembrarei daquele que dedicou cada esforço de sua vida para nos dar conforto, segurança e oportunidades de aprender, mesmo quando suas próprias forças já o tinham abandonado... e ele, mesmo assim, perseverou até o fim.
Por isso, meu barco se chamará "Ulysses", nome de meu pai, meu companheiro, meu amigo, meu grande mestre, a quem dedico a minha própria vida!
Esse texto fará parte do livro "Meu Velho Chico", a ser publicado ao final da expedição.
Caro João, sou estudante de biologia, admirador de esportes de aventura e claro apaixonado pela natureza.
ResponderExcluirIrei acompanhar seus relatos pelo blog.
Lhe desejo muita srenidade e paz nessa nova jornada e que seu esforço seja exemplo de conscientização para todos.